Às vezes, tenho a impressão que vou sair deste mundo do mesmo modo que eu entrei: sozinha e sem nada. Hoje, eu só possuo a minha história e a escrevo agora, enquanto ainda lembro e posso enxergar.
Meu nome é Jaqueline. Jaqueline Rocha. E eu nasci em 1982, ano em que a massa intelectual brasileira ainda sofria com os vestígios da ditadura, que o Brasil terminara em quinto lugar na Copa da Espanha e era governado pelo último militar desde a Revolução: o general João Batista Figueiredo.
Meu pai era comerciante, minha mãe dona de casa. Nasci quando minha família começava ascender financeiramente. No início, fomos morar em um bairro periférico, pois ficava perto do nosso comércio de compra e venda de automóveis. Tempos depois, nos mudamos para uma casa mais ampla e perto das conveniências da vida. Parecia que tudo iria bem, quando em setembro de 1985 uma tragédia mudou tudo: meu pai foi assassinado após uma partida de futebol. Eu não tinha muita idade para entender bem o que estava acontecendo, mas sabia que não era algo bom. Até hoje, ainda me recordo do dia em que meu pai saiu de casa apressado para jogar bola e nunca mais voltou. O reencontro foi demasiadamente triste. Lágrimas, pessoas conhecidas reunidas e meu pai estático, sem vida, sem alma dentro de um caixão. Ele vestia calça social preta e uma camisa branca. Lembro-me de olhar fixamente para ele e chorar copiosamente no colo da minha tia Maria da Penha.
A vida parou ali... É incrível como consigo me recordar de fatos que ocorreram quando eu tinha menos de três anos, mas pouco consigo me recordar da minha vida no decorrer dos 11 anos seguintes. Apenas lembro que não foram tempos fáceis.
Um ano após a morte do meu pai, minha mãe encontrou na desculpa de que precisávamos de uma nova figura paterna a maneira de colocar outro homem dentro de casa. Ele era muito mais jovem que ela, não trabalhava, era um porco, dormia patologicamente por 24 horas ou mais, além de ter passado a mandar em nós, comandar as finanças da família e de tudo que meu pai construiu com muito esforço. Todos ao redor diziam que aquele relacionamento não iria acabar bem, e não acabou. Em 1996, ele desapareceu nos deixando endividados e minha mãe com mais um filho para criar. Agora, éramos quatro: aquela que me colocou no mundo, o filho mais velho dela com meu pai – que por infelicidade do destino tenho que chamá-lo de irmão –, eu e o seu filho caçula – que por infelicidade do destino tenho que chama-lo de meio-irmão –, então com oito anos de idade. E aquele foi um dos períodos mais difíceis da minha vida. Minha mãe não trabalhava, mas ainda recebíamos os aluguéis das nossas outras duas casas e uma pensão do governo, pois meu pai era contribuinte do INSS. Mesmo assim não era muito, nem dava para manter os mesmo padrões de vida. Tudo mudou. Aos quinze anos me vi trabalhando para poder pagar meus estudos. Precisei deixar meus sonhos e minha adolescência de lado para poder me dedicar apenas ao trabalho e ao colégio. A vida seguiu um novo rumo. Conheci lugares novos, fiz amigos, me apaixonei uma, duas, três vezes. Comecei a namorar o menino mais bonito da escola e, para o espanto de todos, terminei com o menino mais bonito da escola. Viajei com pessoas interessantes, comecei a aprender uma nova língua, descobri os segredos de administrar uma empresa durante os três anos do meu curso técnico de administração, chorei, gritei, tomei meu primeiro porre, passei mal no outro dia, minha mãe foi diagnosticada com câncer, entrou em depressão – ela pensava que iria morrer – mas, anos depois, descobriu que o diagnóstico estava errado! Encontrei a Fera – meu primeiro animal de estimação – morta dentro de sua casa. Chorei por ter perdido a cadela amiga que me acompanhou durante parte da infância e da adolescência – que também foram turbulentos diante de tantos acontecimentos – fui assistir Todo Mundo em Pânico no Cine Marabá, no Centro de São Paulo, com meus novos amigos, entrei pela primeira vez na Galeria do Rock – fiquei maravilhada com toda aquela gente estranha e esquisita que respirava música – comecei a montar minha coleção de Cds do Pearl Jam. Aos 15, fui sozinha ao show do U2 na turnê Pop Mart. Na volta, dividi um táxi com mais dois desconhecidos e cheguei às 2h30 da manhã. Minha mãe me esperava acordada – na sala com a luz apagada – e ameaçou me expulsar de casa. Entrei na onda da mobilidade e comprei meu primeiro celular – o Baby. Fui para a balada pela primeira vez, me apaixonei pelas luzes, fiquei com vontade beijar uma garota, mas ela chegou para a festa em companhia de um cara estranho – fiquei de coração partido... Fui para a nossa atual ex-casa na praia com minha mãe e o seu novo namorado, sentei no quiosque Pesqueiro 17 e comecei a escrever uma carta de despedida daquela vida, me despedi do meu passado. Como sempre, chorei até os olhos ficarem inchados. Fui caminhar na praia, o tempo não estava bom e descobri que gosto de ir à praia quando o tempo não está bom. Fui buscar minha prancha em casa, peguei a melhor onda daquele mar – jamais vou esquecer daquela onda. Voltei para minha casa em São Paulo, voltei para o meu trabalho, voltei a participar de peneiras, consegui uma vaga no time de vôlei do Clube Pinheiros, mas, como precisava pagar meu colégio, abandonei mais uma vez meu sonho. Fiquei triste, chorei debaixo do chuveiro, chorei por dias a fio no meu travesseiro... Fui promovida numa multinacional aos 17 anos, comecei a ganhar mais dinheiro. Refiz meus planos, entrei na faculdade, voltei a treinar e comecei a entender aos poucos o que era felicidade e nunca mais deixei de procurá-la. Por impulso e para satisfazer as vontades da minha mãe, quase levei adiante a ideia de me formar em administração de empresas. Tive coragem de mudar de curso e seguir sozinha com meu sonho – considerado por muitos uma profissão utópica – de contar a história dos outros, a história do mundo, da vida, do cotidiano... Ingressei na faculdade de jornalismo e descobri que havia acabado de dar um passo em direção à felicidade. Apaixonei-me pelas aulas de filosofia, antropologia, de técnicas de reportagem, de RSEPB, economia... Eu me apaixonei pela minha profissão na mesma época em que uma garota se apaixonou por mim na faculdade e mudou a minha vida. Embora ela não fosse bela, havia algo em seu olhar que me deixava nervosa. Deixei isso passar, afinal, eu precisa entender algo dentro de mim, primeiramente. Tudo era novo!
Fiz amizade com o meu professor de antropologia, o Zeca. Ele era comunista e suas ideias me influenciaram e ainda me influenciam bastante. Deixei a segurança do meu emprego, larguei uma carreira que me levaria direto para o caminho da infelicidade. Fui procurar estágio, ingressei em grupo anarquista on-line. Passei a me interessar sobre os principais movimentos revolucionários do mundo. Conheci a história de Emiliano Zapata e de Che Guevara. Descobri que cada um de nós precisa fazer a sua própria revolução, pois Zapata e Che já estão mortos. Virei vegetariana quando descobri como são feitos os abates de aves, gados e suínos. Fiquei sem comer carne por longos cinco anos. Aprofundei-me mais sobre a história do Holocausto, passei a querer entender mais sobre a religião judaica e acabei me simpatizando bastante com os judeus. Nesse mesmo ano, reencontrei amigos de infância, amigos que o declínio social levou para longe. As coisas estavam diferentes! A vibe era outra, a moda era ser gospel. Fui convidada para ir à igreja conhecer Jesus, conhecer a famosa palavra de Deus. Aquele foi um convite um tanto indecente para uma atéia. No lugar de Cristo e seu Pai, conheci um anjo pelo qual me apaixonei perdidamente à segunda vista e pelo qual fui apaixonada por longos anos. Embora eu percebesse que ela sentia o mesmo, existem coisas na vida que não devem efetivamente acontecer. Comprei um carro, estava me sentindo feliz. Voltei a treinar, consegui me tornar atleta da Confederação Brasileira de Vôlei de Praia. Era uma nova chance e parecia que tudo estava indo bem. Naquele ano, minha advogada – que era uma antiga amiga da família –
levantou os valores de uma conta judicial na qual era guardada a minha parte em dinheiro da herança do meu pai – e que pagava a minha faculdade – e desapareceu. Nesse mesmo ano, perdemos o nosso terreno por falta de pagamento de impostos. O pior de tudo é que havíamos o vendido dois meses antes e tivemos que devolver o dinheiro que já não tínhamos para o comprador. Por conta disso, precisamos vender – às pressas – as nossas casas – imediatamente – e a um preço ínfimo para o primeiro comprador que apareceu. Tudo isso para evitar problemas com a justiça. Ficamos apenas com uma casa e descobrimos que ela havia sido hipotecada, pois, anos antes, minha mãe havia sido fiadora de um sobrinho do meu pai e ele, por sua vez, não pagara os aluguéis. Nesse ano, tranquei a faculdade por duas vezes – uma em abril e a segunda em setembro –, não conseguia me concentrar em mais nada. Chorava pelos cantos, nas poucas vezes que consegui ir para a faculdade, me trancava no banheiro e chorava por horas. Passei a frequentar todos os bares do entorno da faculdade, sofri um acidente de carro e acabei definitivamente com o meu sonho de jogar profissionalmente voleibol. Passei um ano em depressão profunda, não saia de casa, não comia, não tinha perspectiva, não queria mais tentar nada somente para não me decepcionar mais uma vez e novamente. Fiz diversos exames, frequentei três ortopedistas diferentes e todos eles tinham a mesma opinião em relação ao trauma sofrido pelo meu joelho durante o acidente. Fiz fisioterapia, passei por tratamentos alternativos, acupuntura e nada!
Um belo dia resolvi acordar cedo e abandonar meu pranto. Fui andar por aí. Fiz amizade com um desconhecido. Ele tinha uma empresa de transportes. Passamos horas conversando. Eu tinha uma grana guardada, ele tinha uma empresa prestes a falir por falta de pagamento de débitos tributários e uma dívida em um banco. Investi tudo o que eu tinha na empresa, ela começou a prosperar. Aos poucos, por meio daquele desafio, me livrei da depressão. Consegui voltar para a faculdade. Conheci outras pessoas, me apaixonei novamente por várias outras vezes. Conheci garotos – tentei novamente namorar garotos – mas me apaixonei por aquela que havia se apaixonado por mim nos meus primeiros anos da faculdade. Não deu certo, mas tentei e descobri a importância de tentar. Sempre! Independente de qualquer coisa. Tive alguns casos corriqueiros, até a garota da faculdade me apresentar sua ex-namorada. Foi ai que descobri o gosto amargo do arrependimento. Ferrei minha tão organizada e regrada vida financeira. Chorei por dias e coloquei definitivamente um ponto final naquela história – que começou sem um começo, que começou sem amor, sem sentimento algum, sem paixão, mas por compaixão. Não entendo porque começou. Preciso parar de ter pena das pessoas... Passei a fazer uns frilas para levantar grana, deixei um pouco a empresa na mão do meu então sócio. Ele ferrou tudo outra vez e quebrou lindamente a empresa. Fiquei sem nenhum tostão, mas me formei. Embora tudo novamente estivesse dando errado, prometi para mim mesma que nada mais iria me abalar. E assim permaneci. Firme! Fui trabalhar com um dos ex-sócios do meu pai. Não era a minha área, muito menos onde eu queria estar. Chorei muito, cheguei a pensar que morreria ali, cheguei mais uma vez ao fundo do poço. Agora eu ganhava mal, não contava mais com as minhas reservas financeiras e todos os dias pareciam iguais. Peguei meu medíocre salário e viajei para o Rio de Janeiro no réveillon. Não me lembrava mais como aquela cidade era encantadora. Foi a melhor viagem da minha vida até aqui. Na volta, conheci uma garota que morava no interior de São Paulo. Namoramos por dois meses. Foi bom enquanto durou. Ela era um tanto estranha, além de morar há vários quilômetros de mim. Passou!
Conheci algumas pessoas, peguei alguns frilas na minha área, sai da concessionária, passei a viver de frilas fixos, mas não via a hora de sair daquela vida informal. Fui trabalhar em uma produtora, pensei que a vida de frila havia terminado. Recusei propostas irrecusáveis de coberturas especiais por ter acreditado na promessa de um contrato de doze meses. Balela! Fiquei lá menos de seis meses e nunca me vi tão cercada de gente hipócrita e desinteressante. Nesse meio tempo reencontrei amigos, ri bastante da minha desgraça e da alheia também. Conheci uma garota que me fez esquecer de todas as outras histórias amorosas que eu havia vivido anteriormente. Ela era linda e pela primeira vez me apaixonei à primeira vista. Em menos de uma semana estávamos namorando. Por duas semanas tudo parecia ser tão maravilhoso que fechei meus olhos para a vida, para as suas fugas, falta de maturidade, grana e tudo mais. Eu estava amando pela primeira vez. Foi uma relação bastante conturbada e problemática. Mesmo assim, eu a quis por toda a minha vida. Ela dizia o mesmo, embora tenha me descartado de seus planos na primeira oportunidade de aventurar-se por ai com outro alguém. Revolta! Chorei por dias, me humilhei, me senti só, traída, sem chão, sem perspectiva, liguei para ela e ela não ligou de volta, chegou o final de semana e ela não estava lá Foi aniversário do meu pai e ela não estava lá para me dar um abraço nem segurar a minha mão em um dos piores dias da minha vida. O meu mundo estava desabando, discuti com as pessoas do meu trabalho, estava prestes a jogar tudo para o alto, estreitei laços de amizade com os meus então colegas de trabalho. Passei a frequentar diariamente os bares da Vila Madalena. Tomei vários porres, fui para a balada, ganhei novos ombros amigos, conheci pessoas legais, bebi, dancei, fumei, chorei de saudade, chorei por estar magoada, chorei porque eu precisava chorar para lavar os olhos, chorar para lavar a alma. Beijei uma loira que nunca saberei o seu nome. Me encantei pelos belos olhos azuis de uma outra garota e ela se apaixonou por mim na hora errada. Tive que partir seu coração antes que ela partisse para a Europa. Durante quinze dias ela ficou desbravando o Velho Continente e eu aqui, encarando a minha velha vida. Voltei ao zero. Reencontrei minha ex, fomos almoçar, ela me fez uma proposta indecente. Ficamos – quase transamos. No dia seguinte ela quebrou o meu coração novamente. Decidi que aquela seria a última vez que ela ou qualquer outra pessoa iria me machucar. Parei para pensar na vida e em tudo que eu estava vivendo. Cheguei à conclusão que um verdadeiro amor não nos abandona nunca, tudo supera, tudo sofre, tudo espera, tudo crê... Concluí que se ela fosse o amor da minha vida estaria agora ao meu lado. Mas não está, logo não deve ser o amor da minha vida...
Fui para a Parada Gay, encontrei os meus velhos/novos amigos. Conheci outra garota, ficamos, mas precisei ir embora fechar a matéria de capa da revista. Embora tivesse estado em sua presença durante pouco menos de quatro horas e pouco saber da sua vida, conhecê-la significou algo importante para mim. Ela me libertou novamente do passado! Não sei como nem por que. Mas tudo tem sido diferente depois dela. Nessa mesma semana a bela menina dos olhos azuis voltou da Europa. Além da bagagem cheia de novidades, voltou com outras idéias. Voltou mudada, voltou radiante, com um novo visual e luz própria – gosto de poder notar mudanças positivas nas pessoas. Eu também mudei exteriormente e interiormente. Agora peso três quilos menos, estou novamente usando o velho aparelho ortodôntico e meus cabelos não são mais os mesmos. Apesar de todos os tropeços e tombos que levei da vida ao longo dos meus 27 anos, entrei – definitivamente – em um novo tempo. Agora, tenho de três a quatro anos para acertar a minha vida, para viajar, conhecer gente nova, realizar alguns desejos materiais, crescer e amadurecer. E, se me perguntarem como e onde desejo estar daqui há quatro ou cinco anos, não irei titubear ao dizer que desejo estar casada. Quero estar com alguém que vai me amar independente da situação ou da circunstância, que vai me amar da maneira que sou e que não irá me abandonar quando eu mais precisar dela. Desejo estar morando em uma casa com jardim e, porque não, com uma piscina. Desejo ter um casal de filhos e, juntos, quero poder ser feliz e descobrir o que é ter uma família. Desejo com toda a minha força não parar nunca de procurar a felicidade. E se deseja saber, nunca é tarde demais para ser quem você quiser ser. Não há limite de tempo! Comece quando você quiser. Você pode mudar ou ficar como está. Não há regras para esse tipo de coisa. Podemos encarar a vida de forma positiva ou negativa. Mas espero poder conseguir encará-la de forma positiva. Sempre! Espero ver coisas que me surpreenda, espero ainda sentir coisas que nunca senti antes, espero conhecer pessoas com um ponto de vista diferente do meu, espero, daqui uns anos, poder olhar pra trás e ter orgulho da minha vida. E seu descobrir que não tenho, espero ter forças para começar novamente... De onde eu estiver! Sempre, sempre e sempre e mais uma vez!